Cinco motivos para fazer terapia

Muitas pessoas acreditam que "dar conta de tudo" sozinhas é sinal de força, mas olhar para si mesmo com profundidade é um ato de coragem e liberdade. Aqui estão 5 motivos essenciais para buscar esse processo:

1. Sintomas e angústias não são acasos, são afetos e desejos bloqueados. Falar sobre eles transforma o sofrimento paralisante em conflitos que podemos resolver, desenvolvendo nossa capacidade de agir com intenção e responsabilidade;

2. Por mais que tentemos, temos "pontos cegos" sobre nós mesmos. Precisamos de um outro para nos ajudar a enxergar onde nos sabotamos e para destravar afetos que ficaram presos na garganta;

3. Muitas vezes, o que nos adoece não é apenas individual, mas social. A terapia ajuda a perceber que certas culpas e "verdades" foram impostos de fora para dentro. É um processo de desalienação para parar de carregar o peso de um sistema injusto;

4. Cuidar de si não é egoísmo. É a única forma de governar a própria vida em vez de agir por impulsos ou a partir da opinião alheia. É um exercício de soberania pessoal;

5. A terapia, enfim, nos ajuda a recuperar a capacidade de amar e criar. Deixamos de ser "vividos" pelo destino para nos tornarmos responsáveis por nossa própria caminhada;

Fazer terapia é deixar de repetir o passado para começar, finalmente, a construir o próprio futuro.

Ética na psicoterapia clínica: quem o Psicólogo pode atender?

A Psicologia é a área do conhecimento que lida diretamente com a saúde mental e os processos afetivos das pessoas. Por isso, deve existir um cuidado muito grande com a ética no atendimento. Uma dúvida comum das pessoas ao buscarem este tipo de cuidado, diz respeito ao fato da possibilidade de psicólogos atenderem a amigos, parentes ou pessoas que se conhecem.

Eu sou o psicólogo Bruno Figueiredo, CRP 05/62063, e vou explicar o que as normas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) dizem sobre isso:

Não é indicado que um psicólogo atenda pessoas com quem tem um relacionamento próximo, como amigos ou familiares. Isso porque laços pessoais podem atrapalhar a objetividade, o sigilo e a qualidade do atendimento. O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP) proíbe relações que possam interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado. Incluindo situações onde vínculos antigos ou atuais podem prejudicar a imparcialidade do psicólogo, seja num atendimento ou numa avaliação.

O Art. 2º, alínea "j", do Código de Ética Profissional do Psicólogo veda ao terapeuta "Estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado".

Desta forma, não é recomendado que o mesmo psicólogo atenda, individualmente, duas ou mais pessoas da mesma família – por exemplo, mãe e filha, ou um casal separadamente. Mesmo parecendo uma boa ideia, isso pode criar problemas. O psicólogo pode receber informações delicadas de um que envolvam o outro, e manter o segredo profissional se torna um desafio enorme, pois este fato prejudicaria a confiança e a neutralidade.

É importante notar que a terapia de casal ou familiar, onde a família ou o casal é o foco e as dinâmicas são trabalhadas em conjunto, é uma modalidade permitida, funcional e plenamente aceitável. Ela é diferente e não se confunde com o atendimento individual separado.

A mesma lógica, vista até aqui, vale para grupos de trabalho ou escolares: atender um gerente e um funcionário da mesma empresa, ou dois colegas de turma, pode criar situações desconfortáveis e até comprometer a confiança. O espaço terapêutico precisa ser seguro, ético e livre de influências externas. Dúvidas sobre o sigilo ou comparações podem atrapalhar o processo. Em ambientes de trabalho, onde há dinâmicas de poder, a imparcialidade e a proteção da sua intimidade são cruciais para sua segurança.

Essas regras existem para proteger você, o paciente, e garantir um atendimento de excelência. O psicólogo deve atuar com responsabilidade, imparcialidade e respeito ao sigilo. Se um vínculo pessoal ou social puder atrapalhar esse compromisso ou for incompatível com a ética profissional, o psicólogo deve recusar o atendimento. Nesse caso, o mais correto é indicar outro profissional para você, buscando sempre o menor prejuízo e o seu melhor bem-estar.

Se você gosta do seu psicólogo e confia no trabalho dele, mas precisa indicar alguém próximo (familiar, amigo de escola ou trabalho), o ideal é pedir que ele mesmo sugira outros terapeutas de confiança. Assim, o atendimento será sempre adequado e ético para todos, garantindo o melhor cuidado psicológico possível.

Do silêncio à palavra: roda de conversa reúne mulheres em torno da escuta, da escrita e da cura coletiva

No último sábado, 12 de abril, às 15h, o Lar Espaço Terapêutico abriu suas portas para acolher a roda de conversa "Somos Todas Marias – do silêncio à palavra", reunindo autoras, ouvintes e histórias de coragem, dor e recomeço. O evento marcou o lançamento do livro Somos Todas Marias, uma coletânea de relatos reais de mulheres que viveram relações abusivas e encontraram na escrita uma forma de reconstruir suas vidas.

Michelle Andrade e Eloisa Pereira, organizadoras do livro "Somos todas Maria".

Mais do que um lançamento literário, o encontro foi um convite à escuta profunda. À escuta daquelas que, muitas vezes, foram caladas, desacreditadas ou silenciadas por medo, vergonha ou solidão. Mediado pela psicóloga e mestra em Políticas Públicas Marcella Assis, o momento foi tecido com sensibilidade e firmeza, conduzindo a roda com perguntas que abriram espaço para que as autoras compartilhassem o processo de construção do livro — e de si mesmas.

Marcella Assis, Psicóloga e mediadora da Roda de Conversa.

A potência das Marias

As organizadoras da obra, Eloisa Pereira, doutora em Geografia e mãe solo, e Michelle Andrade, assistente social com longa trajetória no enfrentamento à violência de gênero, falaram sobre a semente que deu origem ao projeto: as rodas de conversa do coletivo Transformar.Inspirar, nas quais mulheres começaram a escrever suas histórias como forma de ressignificação da dor.

“Escrever foi como juntar meus pedaços. Quando li outras histórias, vi que eu não estava sozinha”, disse uma das autoras, ecoando o sentimento de muitas presentes.

Entre o silêncio e a palavra

O nome “Maria” é mais que um pseudônimo coletivo. Ele representa o rosto de muitas: mulheres anônimas, silenciadas, que, ao se reconhecerem umas nas outras, compreendem que a violência doméstica não é um destino inevitável — mas algo que pode ser nomeado, denunciado e superado.

Como destaca uma das reflexões do livro:

“Nem sempre a violência deixa marcas visíveis. Muitas vezes ela se esconde nos gestos, no controle disfarçado de cuidado, nas palavras que ferem devagar.”

Durante a roda, falas emocionadas revelaram como o simples ato de ouvir pode abrir brechas em muros antigos. Cada história lida ou contada trazia à tona uma lembrança, uma ferida, mas também uma possibilidade: a de que não é preciso suportar tudo sozinha.

Roda que acolhe, palavra que transforma

O encontro deste sábado reforça a importância de espaços de escuta e partilha como ferramentas fundamentais no combate à violência contra a mulher. Quando uma mulher se sente escutada — sem julgamento, sem pressa — ela se reconhece como sujeito da própria história. E pode, então, reescrevê-la.

Eloisa e Michelle conduzindo a Roda de Conversa no Lar Espaço Terapêutico.

A escrita, como nos ensina a escritora Conceição Evaristo em sua concepção de escrevivência, não é apenas uma forma de expressão, mas um ato político de existência. As “Marias” do livro fizeram disso uma prática viva: transformaram silêncio em palavra, medo em força, isolamento em rede.

Que venham mais rodas

O Lar Espaço Terapêutico, ao sediar esta roda, reafirma seu compromisso com a construção de espaços restauradores, onde a palavra tem lugar e o afeto tem força. Que esta seja a primeira de muitas rodas e que outras Marias possam chegar!